Projeto de reforma administrativa cria perspectiva positiva com a digitalização

A reforma administrativa,  em tese, pode gerar muitas mudanças positivas, como a economia de tempo e de recursos por meio da digitalização e a revisão de alguns pontos importantes no que diz respeito ao funcionalismo público. No entanto, também pode levar a alguns gargalos, como o aumento da carga de trabalho e a diminuição da eficiência dos serviços. Quem afirma é o doutor em administração Ivan Beck, que participou da live sobre o tema realizada ontem pelo DIÁRIO DO COMÉRCIO.

Começando a entrevista com a digitalização, uma das questões relevantes que se relacionam à proposta do governo federal para a reforma, Beck ressaltou que, sim, os benefícios de seguir nessa linha podem ser diversos. Além dos econômicos, há ainda os relacionados à própria memória das instituições. Com a ajuda da tecnologia, é possível preservar documentos importantes, que não vão se perder em ocorrências como um incêndio.

A digitalização também é um caminho para que a taxa de reposição de pessoal seja menor, gerando economia aos cofres públicos, pois está ligada à reformulação de processos internos.

“À medida que as pessoas vão se aposentando e não há uma reposição, vai diminuindo ao longo do tempo a quantidade de número de funcionários. Os processos têm que ser reformulados e a digitalização é uma parte dessa reformulação. A outra é pensar quais processos podem ser extinguidos, quais podem ser encurtados, para que aqueles que permanecem na máquina tenham condições de trabalhar sem ter excesso de carga de trabalho aumentada por causa da não reposição de mão de obra”, pontuou Beck, enfatizando que, para ele, vários processos podem, sim, ser cortados.

Sendo assim, o doutor em administração chamou a atenção para o fato de que pode não se ter somente vantagens com a digitalização. Um dos entraves seria uma dependência muito maior da tecnologia, apesar de se esperar que não se tenha problemas com ela. Outro ponto tem a ver com o possível corte de postos de trabalho e com o que viria após isso.

“Para aqueles que permanecem no trabalho, muitas vezes aumentará a carga de trabalho em cima deles. A digitalização torna mais rápidos alguns processos. Aqueles que estão trabalhando obviamente vão receber mais demandas. Isso tende a ocorrer”, afirmou. Dessa forma, dependendo da situação, “se o funcionário público tem mais carga de demanda no seu posto significa que vai demorar mais para resolver, aí pode afetar negativamente a eficiência”, disse o doutor em administração.

Jornalista William Araújo e Ivan Beck em live realizada nessa quarta-feira (23)

Ingresso no setor público – Outra questão levantada durante a live diz respeito ao ingresso das pessoas no funcionalismo público e aos novos tipos de vínculos para os futuros servidores. De acordo com a proposta do Ministério da Economia, estes serão cinco – e apenas um com garantia de estabilidade depois de um período de três anos. Além dos concursos, também haverá uma espécie de seleção simplificada.

Para Beck, a oferta diversificada de processo seletivo pode estar sujeita a critérios políticos por trás. Além disso, segundo ele, “a falta de estabilidade pode sujeitar funcionários públicos a serem objeto de troca em mudanças de governo”.

A estabilidade, ponderou, está justamente ligada ao fato de que os funcionários atuem conforme as leis e as normas. Além disso, existem experiências e competências adicionais que, disse ele, não podem ser trocados ao léu.

Alguns benefícios deveriam entrar na discussão

A reforma administrativa proposta pelo governo federal prevê também a revisão de alguns benefícios dos funcionários públicos atualmente. Alguns deles são as férias por mais de 30 dias por ano e o adicional por tempo de serviço.

No entanto, o doutor em administração Ivan Beck frisou durante a live realizada pelo DIÁRIO DO COMÉRCIO que há alguns conflitos, como o fato de que alguns cargos não serão mexidos e que “a massa de funcionários será submetida a cortes”. De acordo com ele, “uma pequena elite que recebe muito por sinal, me parece que sim, além dos benefícios, vai ficar mais ou menos intocável. Isso eu acho incorreto”, disse.

Para Beck, existem benefícios que deveriam, sim, ser cortados e colocados em discussão, inclusive dos “militares, que o Bolsonaro, por uma questão política de querer capturá-los e conseguiu capturar em grande parte, aumentou salário, investiu lá mais do que em outros setores”.

No entanto, a massa do funcionalismo, afirmou, está sendo colocada como “boi de piranha”. “Eu acho que algumas políticas existentes podem ser cortadas, desde que obviamente tenha um contrato de trabalho e reconhecimento salarial de acordo”, disse. Para ele, se tem aumento de carga e não há aumento salarial correspondente tem uma reprodução
de desigualdade.

Beck também ressaltou que existem, atualmente, algumas questões que afetam a capacidade de gastos, mas que não são colocadas explicitamente, como os subsídios e isenção de impostos dados a vários setores sem necessidade.